Adelaide Helena's profileTRAMAS DA VIDA!...PhotosBlogLists Tools Help

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    "YO QUIERO MÍ PIEZA!...

    Buenos Aires agosto 07 264

     

    “Estou no táxi no sentido ao aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, olho, constantemente, para o relógio, bem aflita, parece que nunca aprendo a lição!...Uma vida e, eu, aqui acreditando que posso driblar o tempo!...O motorista está meio mal humorado, pois ficou me esperando uns vinte minutos na porta do hotel. Saí rapidinho para fazer as últimas comprinhas, aquelas de última hora, por sinal, ainda estou com as sacolas na mão  (nem dá para acreditar que fiquei dez dias na Calle Corrientes próxima a Calle Florida e só hoje fui comprar o cashemere que prometi a minha irmã e umas coisinhas mais para mim e outras pessoas). Penso que no aeroporto dará tempo de comprar uma bagagem para comportá-las, afinal, acabei comprando mais do que previra!... Dizem que esta atitude se chama a síndrome do herói, bem, no meu caso, síndrome da heroína, que tem a necessidade da descarga de adrenalina, por ter necessidade de viver no limite!...Aff…

    Pior, ao chegar ao hotel ainda tinha que fazer o check out e, quase que sai com a mala de outro hóspede!...Céus!...

    Bem, aos poucos ia avistando as placas do aeroporto e me tranqüilizava. Na minha bagagem de mãos levava apenas a minha pequena “paixão”: uma peça que apaixonara assim que vi. O impressionante é que ela se chama “El pensador”. Coincidência, pois vim para cá, justamente para pensar sobre mim, sobre minha vida, estava numa fase difícil do meu relacionamento e tentando me recuperar das reviravoltas de minha própria saúde. E, além disso, também admiro o Pensador de Rodin, por sinal, deparei-me com a escultura, o Beijo, dele, neste museu, que emoção! Agora, levo comigo, por sorte, a réplica de uma peça de 1.500 anos a.C., todo cuidado é pouco com ela, afinal o pessoal no Museu a embrulhou,- mesmo sabendo que a levaria para o Brasil-, mais ou menos e, como já era meio tarde quando cheguei ao hotel, não tive tempo ágil para conseguir uma forma de embalá-la melhor. Então decidi trazê-la bem perto de mim, embrulhada sob casaco de lã para não correr risco de quebrar.

    Por causa dela fui ao Museu Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires mais duas vezes, além, da visita que fiz junto com o grupo, do curso de espanhol, onde, de fato, fui apresenta à arte pré-colombiana andina. E, foi após esta visita que descobri esta peça, foférrima,  na loja de souvenir do Museu. Porém, achei-a pesada e fiquei em dúvida quanto a comprar ou não. O preço em si era bem acessível, pela peça, até, achei, acessível demais! Comprei algumas lembranças e me fui. Ledo engano! Pensei que já havia negociado com o meu desejo, mas que nada!...Ela se manteve em minha mente no final de semana!...Segunda já estava na porta do Museu, este estava fechado. Na terça no final do dia, meu último dia, lá estava eu de novo. Ufa!...Que bom, ela ainda estava lá!...Como que me esperando!...E, agora aqui bem perto de mim. Vai para o Brasil!...

    Bom, ao chegar à Companhia Área um problema na confirmação de minha passagem e, de repente, sou obrigada a ser a última a fazer o check in. Tudo bem, lá vou eu para o fim da fila, desde que vá neste vôo, não há com o quê me estressar. Enquanto espero a minha vez, um funcionário da Companhia para adiantar vem me perguntar sobre o que vou despachar e questiona sobre o que há em minha bagagem de mão e, digo-lhe. Inocentemente, mostro-lhe um papel me entregaram (realmente não havia lido, pois para mim estava tudo certo, afinal informei-lhes sobre a minha intenção de transportar a peça para o Brasil no dia seguinte), ao ler ele simplesmente olhou para mim e me disse que teríamos que ir a alfândega. Sem que nenhuma desconfiança surgisse em minha mente o segui tranqüilamente. Nisto está saindo um senhor por uma porta e ele lhe mostra o tal papel vermelho, este senhor o lê e sentencia, firmemente: “ No puede salir del País!”. E, sai, andando como tivesse dito algo do tipo: Hoje vai nevar!...

    Para mim foi como se tivesse, mesmo, caído uma avalanche sobre minha cabeça!...Fiquei inconformada!...Não sabia o que fazer. O garoto da empresa insistia para que fizesse o check in. Não queria ir. Queria resolver o problema! E, ele insistia. Dizia: “Senhora, vai perder o seu vôo”. Aí, me trazia a minha realidade. Não, não podia perder este vôo, de forma alguma!...Sentia-me num espaço sideral. Mais perdida do que nunca.

    Vencendo a minha própria resistência interna, forcei-me a ir fazer o check in. Minha mente não parava de funcionar, rodava, rodava, procurando uma possível saída para a situação...Não posso ficar. Como vou e perco a peça?!...Onde deixá-la?!...Solta no aeroporto?!...Não, preciso tentar mais um pouco!...Preciso!...

    Feito o check in, consigo convencer as funcionárias a me darem só cinco minutos para ir até a alfândega. Confirmo, só cinco minutos!...E lá vamos nós, novamente, o garoto e eu!...Ele já estava parecendo o meu escudeiro!...

    Estava nervosíssima!...Naturalmente já falo um pouco depressa, nervosa, nossa, por vezes, disparo. Imaginem tentando isto em um espanhol de uma semana!...Acho que consegui uma boa confusão num mal espanhol!...

    Logo apareceram dois senhores engravatados e diziam: Calma senhora!...Calma senhora!...

    Quando os vi, procurei me acalmar e explicar a situação!...

    Expliquei-lhes onde comprei a peça, como foi a compra e tudo o mais!...

    Disse-lhes que não foi numa lojinha, foi num Museu e que lhes havia informado que viajaria para o BR.

    Como não me avisaram desta interdição?!...

    Má fé?!...

    Incentivo ao contrabando?!...

    Pediram para esperar e sumiram dentro da repartição.

    Logo, o garoto começou a me apressar: “Senhora, tem que embarcar”...

    O desespero começou a tomar conta novamente de mim.

    Vejo-me chorando!...

    Não sabia porquê chorava: se de raiva, se indignação, se desamparo.

    Apenas sentia que isto não parecia estar acontecendo!...

    Parecia que era cena de um filme que não queria estar fazendo parte.

    Logo, um engravatado voltou e confirmou a sentença: “ No puede salir del País”.

    Peguei minha sacola de mão.

    Arranquei o pacote de dentro do casaco.

    Coloquei-o à frente do funcionário da alfândega e, disse-lhe:

    - Então a peça fica aqui!...Quando voltar à Argentina, resolvo esta questão!...(senti-me tão bem neste momento!).

    Mas, durou segundos. Logo, veio outra sentença.

    - No,señora, no puede ficar!...

    - Noooooooo!...No,  cómo no puede ficar!...Cómo no puede ficar?!...(fase disco arranhado)

    (Desmorono-me novamente!...

    Esgotei-me, desisto!...)

    Agarrei o pacote. Pus embaixo dos braços e saí.

    Nisto o garoto olhou para mim e me disse:

    -Senhora, eu guardo a peça para da senhora até que uma pessoa amiga possa vir buscá-la comigo.

    Olhei para ele incrédula!...

    E, em minha mente, inevitavelmente veio a confirmação:

    "É um anjo!!!..."

    Suas colegas de trabalho tentaram interferir dizendo que não era permitido pelas regras da empresa.

    Disse-me que guardaria no guarda-volume do aeroporto, ou, que levaria para sua casa.

    Tentei lhe dar um dinheiro para as despesas do mesmo.

    -No plata, señora! E repetiu-me a sua frase predileta:

    -Apresse-se, senhora, senão perde seu vôo!...

    Eu quase que saí voando isto sim!...

    Meu anjo, foi me orientando nas formalidades para embargar.

    Atravessei o freeshop em disparada. Caia a identidade. Caia casaco.

    Sacolas na mão. Mochila do lap. Bagagem de mão semi-vazia. Uma confusão!...

    Foi comigo até onde lhe era permitido, isto é até o corredor da entrada para o avião.

    Quase o agarrei em seu pescoço e o enchi de beijos! Contive-me!...

    Agora eu levitava!...

    Dentro do avião, os passageiros supunham que acabava de entrar uma retardatária (sacoleira internacional) “doidivana”. Sei lá o quê. Mas as expressões não eram muito simpáticas (na realidade me trucidavam com o olhar)!... No meu drama pessoal, nem tinha me dado conta que estava atrasando o vôo...

    No ar, caí em um sono profundo!...Acordei para o lanchinho. Ainda agradecia em espanhol, acho que era o hábito!...

    Dormi novamente. A uma certa altura do vôo volto a despertar e começo a me remexer, me remexer. Percebo que o casal ao lado se incomoda um pouco. Devem ter pensado: "Nossa, esta é realmente uma pessoa desiquilibrada!..."

    Mexo nos bolsos da calça, mexo nos bolsos do casaco, mexo na bolsa toda, abro carteira, abro carteirinhas (não vou me estender muito, bolsa de mulher, é bolsa de mulher!).

    Aí, a minha companheira do lado se solidarizou, creio que ela entendeu este lado e, me perguntou:

    -Você perdeu algo?!...

    Respondi-lhe:

    - Não estou achando o meu cartão de crédito!...

    Ela se supreendeu:

    -Nãããooo???

    - Creio que acabei deixando em cima do balcão do hotel no check out!...

    E aí iniciamos um diálogo, um bom papo, trocamos nossas experiências. Ela com seu marido sobre a viagem deles e, eu a minha, e sobre o meu filhote pré-colombiano, que é como passo a chamá-lo. Como foi reconfortante a nossa conversa!...

    Ao nos aproximarmos de São Paulo trocamos nossos endereços. Tiro uma foto deles. Um casal muitíssimo simpático. Eles me fizeram muito bem, numa manhã que me parecia ter sido muitíssimo longa. Na realidade vai ser um dia muitíssimo longo, porque ainda vou trabalhar!...Chego com o vazio de minha bagagem de mão e consternada pela peça ter ficado lá, mesmo que em boas mãos! Um dia voltarei, não só para resgatá-la como para esclarecer esta situação!...Yo voy a volver al Sur!...

     

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