| Adelaide Helena's profileTRAMAS DA VIDA!...PhotosBlogLists | Help |
"YO QUIERO MÍ PIEZA!...
“Estou no táxi no sentido ao aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, olho, constantemente, para o relógio, bem aflita, parece que nunca aprendo a lição!...Uma vida e, eu, aqui acreditando que posso driblar o tempo!...O motorista está meio mal humorado, pois ficou me esperando uns vinte minutos na porta do hotel. Saí rapidinho para fazer as últimas comprinhas, aquelas de última hora, por sinal, ainda estou com as sacolas na mão (nem dá para acreditar que fiquei dez dias na Calle Corrientes próxima a Calle Florida e só hoje fui comprar o cashemere que prometi a minha irmã e umas coisinhas mais para mim e outras pessoas). Penso que no aeroporto dará tempo de comprar uma bagagem para comportá-las, afinal, acabei comprando mais do que previra!... Dizem que esta atitude se chama a síndrome do herói, bem, no meu caso, síndrome da heroína, que tem a necessidade da descarga de adrenalina, por ter necessidade de viver no limite!...Aff… Pior, ao chegar ao hotel ainda tinha que fazer o check out e, quase que sai com a mala de outro hóspede!...Céus!... Bem, aos poucos ia avistando as placas do aeroporto e me tranqüilizava. Na minha bagagem de mãos levava apenas a minha pequena “paixão”: uma peça que apaixonara assim que vi. O impressionante é que ela se chama “El pensador”. Coincidência, pois vim para cá, justamente para pensar sobre mim, sobre minha vida, estava numa fase difícil do meu relacionamento e tentando me recuperar das reviravoltas de minha própria saúde. E, além disso, também admiro o Pensador de Rodin, por sinal, deparei-me com a escultura, o Beijo, dele, neste museu, que emoção! Agora, levo comigo, por sorte, a réplica de uma peça de 1.500 anos a.C., todo cuidado é pouco com ela, afinal o pessoal no Museu a embrulhou,- mesmo sabendo que a levaria para o Brasil-, mais ou menos e, como já era meio tarde quando cheguei ao hotel, não tive tempo ágil para conseguir uma forma de embalá-la melhor. Então decidi trazê-la bem perto de mim, embrulhada sob casaco de lã para não correr risco de quebrar. Por causa dela fui ao Museu Nacional de Bellas Artes de Buenos Aires mais duas vezes, além, da visita que fiz junto com o grupo, do curso de espanhol, onde, de fato, fui apresenta à arte pré-colombiana andina. E, foi após esta visita que descobri esta peça, foférrima, na loja de souvenir do Museu. Porém, achei-a pesada e fiquei em dúvida quanto a comprar ou não. O preço em si era bem acessível, pela peça, até, achei, acessível demais! Comprei algumas lembranças e me fui. Ledo engano! Pensei que já havia negociado com o meu desejo, mas que nada!...Ela se manteve em minha mente no final de semana!...Segunda já estava na porta do Museu, este estava fechado. Na terça no final do dia, meu último dia, lá estava eu de novo. Ufa!...Que bom, ela ainda estava lá!...Como que me esperando!...E, agora aqui bem perto de mim. Vai para o Brasil!... Bom, ao chegar à Companhia Área um problema na confirmação de minha passagem e, de repente, sou obrigada a ser a última a fazer o check in. Tudo bem, lá vou eu para o fim da fila, desde que vá neste vôo, não há com o quê me estressar. Enquanto espero a minha vez, um funcionário da Companhia para adiantar vem me perguntar sobre o que vou despachar e questiona sobre o que há em minha bagagem de mão e, digo-lhe. Inocentemente, mostro-lhe um papel me entregaram (realmente não havia lido, pois para mim estava tudo certo, afinal informei-lhes sobre a minha intenção de transportar a peça para o Brasil no dia seguinte), ao ler ele simplesmente olhou para mim e me disse que teríamos que ir a alfândega. Sem que nenhuma desconfiança surgisse em minha mente o segui tranqüilamente. Nisto está saindo um senhor por uma porta e ele lhe mostra o tal papel vermelho, este senhor o lê e sentencia, firmemente: “ No puede salir del País!”. E, sai, andando como tivesse dito algo do tipo: Hoje vai nevar!... Para mim foi como se tivesse, mesmo, caído uma avalanche sobre minha cabeça!...Fiquei inconformada!...Não sabia o que fazer. O garoto da empresa insistia para que fizesse o check in. Não queria ir. Queria resolver o problema! E, ele insistia. Dizia: “Senhora, vai perder o seu vôo”. Aí, me trazia a minha realidade. Não, não podia perder este vôo, de forma alguma!...Sentia-me num espaço sideral. Mais perdida do que nunca. Vencendo a minha própria resistência interna, forcei-me a ir fazer o check in. Minha mente não parava de funcionar, rodava, rodava, procurando uma possível saída para a situação...Não posso ficar. Como vou e perco a peça?!...Onde deixá-la?!...Solta no aeroporto?!...Não, preciso tentar mais um pouco!...Preciso!... Feito o check in, consigo convencer as funcionárias a me darem só cinco minutos para ir até a alfândega. Confirmo, só cinco minutos!...E lá vamos nós, novamente, o garoto e eu!...Ele já estava parecendo o meu escudeiro!... Estava nervosíssima!...Naturalmente já falo um pouco depressa, nervosa, nossa, por vezes, disparo. Imaginem tentando isto em um espanhol de uma semana!...Acho que consegui uma boa confusão num mal espanhol!... Logo apareceram dois senhores engravatados e diziam: Calma senhora!...Calma senhora!... Quando os vi, procurei me acalmar e explicar a situação!... Expliquei-lhes onde comprei a peça, como foi a compra e tudo o mais!... Disse-lhes que não foi numa lojinha, foi num Museu e que lhes havia informado que viajaria para o BR. Como não me avisaram desta interdição?!... Má fé?!... Incentivo ao contrabando?!... Pediram para esperar e sumiram dentro da repartição. Logo, o garoto começou a me apressar: “Senhora, tem que embarcar”... O desespero começou a tomar conta novamente de mim. Vejo-me chorando!... Não sabia porquê chorava: se de raiva, se indignação, se desamparo. Apenas sentia que isto não parecia estar acontecendo!... Parecia que era cena de um filme que não queria estar fazendo parte. Logo, um engravatado voltou e confirmou a sentença: “ No puede salir del País”. Peguei minha sacola de mão. Arranquei o pacote de dentro do casaco. Coloquei-o à frente do funcionário da alfândega e, disse-lhe: - Então a peça fica aqui!...Quando voltar à Argentina, resolvo esta questão!...(senti-me tão bem neste momento!). Mas, durou segundos. Logo, veio outra sentença. - No,señora, no puede ficar!... - Noooooooo!...No, cómo no puede ficar!...Cómo no puede ficar?!...(fase disco arranhado) (Desmorono-me novamente!... Esgotei-me, desisto!...) Agarrei o pacote. Pus embaixo dos braços e saí. Nisto o garoto olhou para mim e me disse: -Senhora, eu guardo a peça para da senhora até que uma pessoa amiga possa vir buscá-la comigo. Olhei para ele incrédula!... E, em minha mente, inevitavelmente veio a confirmação: "É um anjo!!!..."
Suas colegas de trabalho tentaram interferir dizendo que não era permitido pelas regras da empresa.
Disse-me que guardaria no guarda-volume do aeroporto, ou, que levaria para sua casa.
Tentei lhe dar um dinheiro para as despesas do mesmo.
-No plata, señora! E repetiu-me a sua frase predileta:
Eu quase que saí voando isto sim!... Meu anjo, foi me orientando nas formalidades para embargar. Atravessei o freeshop em disparada. Caia a identidade. Caia casaco. Sacolas na mão. Mochila do lap. Bagagem de mão semi-vazia. Uma confusão!... Foi comigo até onde lhe era permitido, isto é até o corredor da entrada para o avião.
Quase o agarrei em seu pescoço e o enchi de beijos! Contive-me!...
Agora eu levitava!... Dentro do avião, os passageiros supunham que acabava de entrar uma retardatária (sacoleira internacional) “doidivana”. Sei lá o quê. Mas as expressões não eram muito simpáticas (na realidade me trucidavam com o olhar)!... No meu drama pessoal, nem tinha me dado conta que estava atrasando o vôo... No ar, caí em um sono profundo!...Acordei para o lanchinho. Ainda agradecia em espanhol, acho que era o hábito!... Dormi novamente. A uma certa altura do vôo volto a despertar e começo a me remexer, me remexer. Percebo que o casal ao lado se incomoda um pouco. Devem ter pensado: "Nossa, esta é realmente uma pessoa desiquilibrada!..." Mexo nos bolsos da calça, mexo nos bolsos do casaco, mexo na bolsa toda, abro carteira, abro carteirinhas (não vou me estender muito, bolsa de mulher, é bolsa de mulher!). Aí, a minha companheira do lado se solidarizou, creio que ela entendeu este lado e, me perguntou: -Você perdeu algo?!... Respondi-lhe: - Não estou achando o meu cartão de crédito!... Ela se supreendeu: -Nãããooo??? - Creio que acabei deixando em cima do balcão do hotel no check out!... E aí iniciamos um diálogo, um bom papo, trocamos nossas experiências. Ela com seu marido sobre a viagem deles e, eu a minha, e sobre o meu filhote pré-colombiano, que é como passo a chamá-lo. Como foi reconfortante a nossa conversa!... Ao nos aproximarmos de São Paulo trocamos nossos endereços. Tiro uma foto deles. Um casal muitíssimo simpático. Eles me fizeram muito bem, numa manhã que me parecia ter sido muitíssimo longa. Na realidade vai ser um dia muitíssimo longo, porque ainda vou trabalhar!...Chego com o vazio de minha bagagem de mão e consternada pela peça ter ficado lá, mesmo que em boas mãos! Um dia voltarei, não só para resgatá-la como para esclarecer esta situação!...Yo voy a volver al Sur!...
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VUELVO AL SUR
Enquanto o avião decolava, minha mente, mesmo que, muito conturbada pelos efeitos dos últimos acontecimentos, era invadida pela música: "Vuelvo al sur como si siempre volviese al amor"...O que será que ela queria me dizer?!... Cinco anos se passaram deste que fui a Buenos Aires. Na época estava indo contra as “prescrições” astrológicas (entenda-se bem: não disse previsões astrológicas!), sim, minha revolução solar certamente seria bem melhor na cidade de São Paulo, local onde vivo. No entanto, havia um aspecto que me parecia ser muito mais interessante de experenciar se minha revolução solar ocorresse na capital portenha. E lá fomos nós! Foi um passeio muito bom, nos divertimos muito. Foram cinco dias maravilhosos, regados a vinho, sob o som do tango e curtindo toda a maravilha que esta capital pode proporcionar. A capital mais européia da América Latina! Agora, no entanto, vivia um novo desafio, estou indo só!... Quantas coisas me aconteceram nestes cinco anos!...Vi minha avó pela greta - como diz uma amiga minha (traduzindo: ficar à beira da morte)!...Será que se tivesse seguido a “prescrição” astrológica os caminhos teriam sido outros?!...As dúvidas sempre permanecerão. Por um lado atingi meus objetivos. Sim, tornei-me mais impermeável aos problemas familiares, frente aos quais, anteriormente, mostrava-me susceptível, no entanto, parece que acabei construindo uma bomba relógio dentro de mim, pois meses depois sofri um acidente em uma aula de spinning na academia que, por pouco, não atinge um tendão e, aí, sim, a seqüela teria sido muito mais grave do que apenas uma cicatriz na canela. Dois meses depois, na virada do ano de 2003, mal tinham acabado os rastros dos fogos dos festejos de fim de ano, as dores de uma colecistite aguda me atingem e me causam todos os transtornos já narrados (até exaustivamente) nos capítulos que deram origem a este blog. E, agora, fazia uma revolução própria, arriscava-me a ir só numa viagem ao estrangeiro! Voltava para lá, para o lugar que pode ter sido o estopim de tudo...(se é que se pode dizer isto!).
A viagem foi tão profunda, tão significativa... Ela significou, sim, o efeito mais imediato da tentativa de me resgastar, de recuperar, de ir atrás de mim mesma...de tentar reencontrar-me...de buscar partes de um quebra cabeça... De recuperar os restolhos da bomba!... Antes de partir escrevi um texto que transcreverei abaixo, mas antes de transcrevê-lo quero apenas deixar registrado, que somente no meu retorno que me lembrei que retornei exatamente dez dias antes da primeira audiência do meu processo judicial que será amanhã (ou melhor, hoje, porque não estou conseguindo dormir)!...Aff...Que ansiedade!...
UN VIAJE AL EXTRANJERO (al extraño en mi mísma)
Existem e viagens... Esta seja a "viagem"...
ASAS DA LIBERDADE...Desconfio que perdi minhas asas...
Toda vez que tento voar...
Esborracho-me no chão!...
Temo ficar para sempre presa ao solo.
Não conseguir seguir um curso...
Acho que nem mesmo sei para onde ir...
Onde será que as perdi (ou que me perdi)?!...
Será que elas apenas se atrofiaram?!...
Como não havia percebido que estava sem elas?!...
(será que são recuperáveis?!...)
Sinto que, talvez, não seja mais capaz...
Já não sou tão jovem...
Já não tenho os ímpetos da juventude...
Já me desacostumei de ser livre...
Enfim, acho que me desabituei de sonhar!...
O JOGO DAS CONTRADIÇÕES
A vida é um jogo onde tudo pode acontecer!...
E, não por poucas vezes, as relações se transformam.
A brincadeira pode deixar de ser brincadeira...
A amizade pode deixar de ser amizade...
A fraternidade pode deixar de ser fraternidade...
Do amor, então, nem se fala!...
As relações podem ficar extremamente desestabilizadas...
Comprometendo o amor. Expandindo os interesses...
E, lá se vai o amor entre pais e filhos...
Lá se vai o amor entre o homem e a mulher...
Sociedades se dissolvem...
Rompendo vínculos que são frágeis frente ao poder do jogo.
Como uma roleta da própria vida.
A roleta gira...a sorte está lançada...
Voltas, voltas, voltas que a vida dá!...
Será que é a roda da fortuna que gira?!....
Hoje o que está à cima, amanhã poderá estar embaixo?!...
Apostasse em algo,
por vezes apostasse muito,
por outras age mais acanhadamente...
Mas sempre estamos de alguma forma apostando em nossas relações.
De repente, um ato de afeto pode se voltar contra você.
Você pode ser blefado!...
Ai, você não foi bom. Você foi ingênuo.
Pode ter sido um ato de amor, ou, talvez:
um ato de superioridade?!...
(eu estou melhor do que você, ou, como você pode estar melhor do que eu?!...)
um ato de controle do outro?!...
(eu te ajudo e te mantenho sobre minhas rédeas!...)
um ato de manipulação?!...
(se você não me ajudar eu posso deixar de te querer).
Esnobismo versus generosidade?!...
Gratidão versus mesquinharia?!...
De que lado jogo?!...O apostador?!...Ou a banca?!...
Há a gentileza, há a desconsideração!...
Parece que o bom e o cruel se mesclam...
Em tonalidades imperceptíveis...
Mas, impreterivelmente;
A confiança nas relações está à deriva da sorte!
Há coisas que não se compra...
Se incorrermos neste risco...
Podemos computar os prejuízos afetivos.
Seu significado vai muito além do que podemos imaginar...
As situações vão se invertendo, se pervertendo, se desfazendo!...
Uau!!!...Como somos humanos!...
E como reconhecer as motivações inconscientes que nos move?!...
Como nos proteger do próprio amor (ou desamor) que nos acomete?!...
Qual é a linha limítrofe entre o nosso amor próprio e o amor ao outro?!...
Talvez leve toda uma vida para compreender:
A dança das apostas!...
As voltas da roleta!...
As manhas do jogador!...
FACTOTUM...Perdia-me...Dava voltas, retornava, perdia-me novamente...
Por um momento pensei que nunca chegaria ao meu destino!...
Irritava-me comigo mesma.
A minha co-pilota se desesperava...
Vire aqui...E, novamente, ao invés de ir à direita via-me indo para a esquerda!...
Andávamos em círculo...
Como se quisesse voltar ao ponto de partida e não seguir em frente!
Há poucas horas, antes, vivia uma experiência inédita:
consultava a compra da passagem de avião, apenas de ida.
Mais um que parte! Não só parte daqui, ele está partindo da vida...
Entendi o porquê que estava me sendo tão difícil acertar o caminho de sua casa;
vê-lo ali, magérrimo, com os braços como de um filhote de passarinho
(como ele mesmo disse)!
Via-se apenas os lençóis, mal se percebia que cobria um corpo.
Vê-lo ali, chorando por não compreender seu próprio drama!...
Estamos nos despedindo a cada encontro.
Lá se vai o nosso faz tudo!...
Olho a minha volta e vejo as coisas que protelamos...
Há tanto para ser feito em minha casa!
Pensávamos que tínhamos tempo...
Mas, agora, olho pra estas coisas por fazer e,
meu coração se aperta.
Não há mais como chamá-lo a cada problema.
Ele não mais nos atenderá...
Sabia que podia contar com ele!
E, ele ainda me diz: não me substitua, eu voltarei!...
Como contradizê-lo?!...
Dói...Vê-lo definhando...
E se esforçando para sorrir!
Agora vai partir...
Vai rever a mãe que não vê há vinte sete anos.
Deixará para trás uma filha que já é órfã de mãe...
Nos deixará para trás...
E seguirá para sua última viagem...
O câncer o consome.
Sofremos mais esta perda.
Factotum...Ele era o nosso "faz tudo"!...
E, na dor, penso no refrão da canção que leva seu nome:
Manoel, o audaz
Manoel, o audaz
Manoel, o audaz, vamos lá.
PAIXÃO!...Hoje é sexta-feira, não, hoje é mais do que sexta-feira;
Hoje é a Sexta-feira da Paixão de Cristo
Ao acordar me vem à mente o rosto e o corpo de Cristo, ensangüentado, por seu martírio.
O sangue já lhe havia corrido as faces no Monte das Oliveiras, suou sangue, devido ao excessivo estresse, por saber de seu calvário.
Nem sempre a "previsão" é algo que nos favorece, principalmente se é algo que não podemos modificar, e sim, algo que temos que aceitar!...
Logo após me levantar, minha mãe, católica, mostra-me uma oração de São Pio de Pietrelcina (conhecido como Padre Pio), que possuía as chagas de Cristo, tornando-o uma representação viva de Jesus Crucificado. Seu semblante pareceu-me conhecido, de repente, houve uma ligação afetiva que, neste momento, para mim era inexplicável...Somente depois de conversar com meu namorado que tive conhecimento que, à época de minha doença, sua tia, italiana, havia solicitado aos franciscanos do convento de Padre Pio na Itália, que fizessem uma novena em minha intersecção. Será que foi este fato que me proporcionou esta sensação de familiaridade?!...
O corpo magro de Cristo me remete a imagem frágil do meu amigo com câncer terminal.
Será que é importante que alguém converse com ele sobre esta situação?!...
Até onde se pode caminhar neste sentido e não ser invasiva?!...
Penso que na hora de sua morte Cristo vacilou em sua fé, este momento de fraqueza, de vulnerabilidade, de fragilidade o tornou tão humano.
Tal como Cristo penso nessas pessoas que sabem, ou, que pressentem que a morte se aproxima, que a morte está ao lado, que está ali sem lhe deixar escolhas; está ali, de uma maneira irrevogável
Se Cristo viveu isto, o que será que pode ocorrer em nós reles mortais, reles humanos?!...
Penso nestas pessoas datadas, que já sabem que vão morrer, impreterivelmente!...
Putz!...Como deve ser difícil saber que já vai partir!...
Meu pai disse a uma vizinha que já estava com as malas prontas para o outro lado, pouco antes do seu falecimento.
Meu amigo após uma cirurgia do cérebro, dizia-me que "Ela" estava alí, ao nosso lado e, "Ela" o levou alguns meses depois.
O meu sobrinho uma semana antes de morrer, precocemente, disse aos seus amigos que se morresse queria ser enterrado com a camiseta do Cruzeiro!...
No filme All the Jazz, Bob Fosse, num filme autobiográfico, dialoga com a morte...E, veio a falecer de enfarto, tal como o personagem de seu filme!...
Será que pressentimos, ou será apenas uma conexão de falas após a evidência dos fatos?!...
Há aqueles que são sentenciados, sabendo com antecedência que seu dia se aproxima e sabesse lá o que passa em suas mentes...
Há aqueles que se sabem mortais e lidam com a vida com esta consciência.
Há aqueles que se sentem "invulneráveis" e falar desta questão é muito mórbido!..
Paixão de Cristo...paixão dos homens...
Paixão...Sofrimento, martírio ou sentimentos intensos e avassaladores?!...
Paixão!...
SONHOS EMPOEIRADOS...É como se fosse o despertar para um dia.
Só que é o despertar para a vida!...
Olho ao redor e vejo quantas coisas para arrumar.
Quantas coisas procrastinadas.
Quanto da própria vida foi abandonado!
Fazer a faxina da vida.
Que tarefa árdua!...
Surpreendo-me!...
Tantas coisas boas que estavam guardadas,
bem lá no fundo do sótão interior!...
Arregaçar as mangas e começar...
Muito trabalho pela frente...
Retirar...um por um, daqueles sonhos...
Quanta poeira!...
Sonhos esquecidos, sonhos que nem sabia que estavam lá!...
Sonhos que não acreditava serem possíveis de realizar!...
E, agora?!...Como fazer para que eles tomem vida novamente?!...
Não importa o porquê foram parar lá,
o que importa é que ainda há tempo para os pôr em prática!...
Sim, a vida pode ser curta, muito curta, para todos estes sonhos!...
Talvez tenha ficado tempo demais sem atitude! Acomodada!...
Para alguns sonhos talvez não haja mais tempo!...
Talvez... não seja possível todos!...
Mas que seja um ou dois destes sonhos...
Talvez...
Minha vida já estará valendo a pena!...
PRAZO DE VALIDADESomos todos mortais!...
Um fato incontestável, porém, sabendo-se que a sua saúde está, sempre, em risco,
esta certeza se torna mais próxima, mais intima.
O que fazer de minha própria existência?!...
O que é a felicidade?!...
Que vida deve ser vivida?!...
Os sentimentos vão se confundindo...
Sinto-me perdida em mim mesma...
Estou de pernas para o ar!...
Desorganizo-me...
De repente, parece-me que estou com mãos vazias...
Onde estará tudo o quê vivi?!...
Que vida escolhi para mim?!...
A fala do médico se reverbera...
“Hoje está bem, amanhã poderá não estar!...”
Algo tão óbvio para qualquer um de nós!...
Mas em mim gera um profundo impacto emocional.
E agora, amanhã poderei estar, novamente, hospitalizada?!...
Sobreviverei a uma possível cirrose hepática?!...
São possibilidades, não certezas...
Isto não impede que haja um curto-circuito mental...
E as dúvidas existenciais mais uma vez se apoderam de mim.
O que realmente vale a pena ser vivido?!...
O que realmente tenho que dar importância?!...
Viver, sobreviver ou simplesmente me deixar existir?
Sempre tive a ilusão de um longo caminho pela frente...
Posso viver até mais do que o médico que proferiu tal debilidade.
Mas a minha alma está inquieta...
A roupagem que tenho usado, de repente, parece que não me serve mais...
Descortina-se um mundo falível!...
E aí?!...
“Meu amor, o que você faria se só lhe restasse este dia?”
Na voz de Paulinho Mosca, uma questão tão imediatista...
Mas quantos dias terei?!...
Quantos dias saudáveis terei?!...
A realidade é mortal!...
Qual é a minha realidade?!...
Que realidade posso construir para mim mesma?!...
Os dias passam...
Viver, uma palavra de ordem!...
Onde as decisões tomam um peso significativo!
Somos nossos construtores...nossos arquitetos...
Criadores...criatura...
Como viver a vida a ser vivida?!...
Quando será que expira a minha validade?!...
MARCAS QUE FICAM!... Hoje foi o dia dos meus exames para o retorno médico que será amanhã. Sempre deixo para marcar na última das últimas horas e sempre os resultados acabam saindo em caráter de urgência! Argh!...
A temperatura da cidade está alta, mas lá dentro do laboratório sentia um frio gélido!...
Desde minha doença passei a ser uma freqüentadora dos laboratórios, algo que fazia raramente antes do episódio das complicações cirúrgicas em minha vida.
No momento do exame de sangue, sinto uma pequena aflição, mas a funcionária foi muito eficiente e mal senti a picada da agulha. Obviamente, que quando a funcionária me disse que ainda bem que o frio que sentia não fez sumir minhas veias, lembrei-me das dificuldades que as enfermeiras sentiam para manter os acessos na minha última internação e brincavam que minhas veias eram enganosas. Sim, tinha veias ótimas, mas agora apesar de aparentarem boas, são frágeis. Um dia, cheguei a me compadecer de uma enfermeira que na correria de suas atividades teve que enfrentar três veias rompidas. Para ela era um transtorno, naquele momento até esqueci que era eu que estava sendo furada e me constrangia pelo trabalho que estava lhe causando. Ela era muito legal e não merecia isto!...
E lá vou eu para outro andar para fazer a ultra-sonografia!...Nas mãos portava os meus exames anteriores...levei somente quatro, achei que seria suficiente para que o radiologista tivesse uma idéia do meu quadro clínico.
Uma das vantagens que senti por época de minhas cirurgias era que estavam na moda calças de cós baixo, isto era mesmo uma vantagem, considerando as cicatrizes no abdômen, havia muito mais confortabilidade, assim adote-as para sempre. Na minha última internação, podia passear pelo hospital com o dreno nas mãos graças a estas calças, que não me impediam em nada!...
Desde que tive alta hospitalar em outubro passado, fiquei um quanto aflita por saber que ainda havia o abscesso em meu corpo. Afinal por ocasião da punção, o líquido estava denso demais e foi retirado um mínimo. Na ultima ressonância magnética, em dezembro, ele ainda estava com 2,5cm, tudo bem que estava pela metade em relação a sua descoberta, mas não conseguia ficar tranqüila e imaginar que ele se dissolveria no meu organismo.
A enfermeira me chamou e me preparou para o exame, teria que aguardar!....A sala estava extremamente gelada. O frio percorria meu corpo e as lembranças retornavam a minha mente em flashbacks...Uma das piores vivencias, já narrada neste blog, foi quando o médico de descendência oriental deixou-me ficar naquela sala e quase que foi embora me deixando lá!...E, das muitas vezes que ficava esperando me buscarem após os exames, algo que aconteceu também da última vez; o técnico arranjou uma salinha para ficar enquanto aguardava a enfermeira do meu andar, mas o tempo passava e nada, somente muito tempo depois que ela surgiu, estava aliviada, pensara que pudesse ter fugido, já que não me encontrava! Ufa!...Sair daquele ambiente no qual sentia frio, mesmo que tivessem me coberto com um lençol.
Não!... Além das lembranças, o frio me consumia, sentia-me um animal esperando para o abate. O tempo de espera talvez não fosse tanto assim, mas para o meu tempo interno era além do que podia suportar e, ineditamente, levantei-me e saí da sala. Passei por duas portas e dei de cara com o médico...humm....retornaaannndooooo....
Logicamente, como em todos os meus exames, tenho que contar as histórias das minhas cicatrizes...e lá vamos nós: a primeira foi em função da saída precoce do dreno de Kher...blá..blá...blá....a segunda.....etc...etc...etc...(pelo menos aqui vou evitar de repetir as histórias)!....Perguntou-me se sabiam a causa do abscesso hepático...e lá vou eu:: a minha última cirurgia, anastomose bilio-digestiva e, blá...blá...blá...
Boa notícia!...Tudo ok!...Não tem nem mesmo uma cicatriz interna...o abscesso se foi definitivamente!...Mas como disse o médico, não foi simplesmente por ir, toda aquela batelada de antibióticos que ingeri por dois meses fez o seu trabalho!...Nem dá para explicar o quanto foi difícil tomar cipro e flagil na quantidade que tomei!...
Volto para casa e percebo que o tempo passa, mas as vivências sempre retornam à minha mente!...Gostaria muito que pudesse deletá-las como deletamos aqui no word, arrasta o mouse, aperta um botãozinho e pronto, já não há mais nada naquele local, já está pronto para se colocar outra palavra, outro símbolo!...
Será que deveria tomar a pílula do esquecimento?!...
ESTAÇÃO DA MORTEHá um ano atrás comecei o meu blog!... Era o espaço que criei para que pudesse expressar todos aqueles sentimentos que transbordavam em meu ser. Procurei seguir uma ordem cronológica da escrita com a minha experiência. Foi um reviver diário. Sofrido, porém, conectei o meu mundo interior com o exterior. Construí uma ponte, uma ponte que, através dos meses, me possibilitou, psiquicamente, de sair daquele lugar, e hoje, sinto-me do outro lado desta ponte. Atravessei. Saí do inferno que habitava a minha mente, por ter vivido o quê vivi, por ter estado com um dos pés na barca de Caronte e agora me sinto mais elaborada, pus para fora todos os fantasmas que me atormentavam. Há quatro anos atrás vivíamos os momentos mais trágicos de minha vida, à beira da morte, tentava dar conta de minha existência física e psíquica. Sobrevivi. O trauma permanecia em mim; talvez pela força da imprevisibilidade, talvez pela extensão de tempo em que mantive numa linha tênue entre a vida e a morte, talvez porque pude me ver vomitando sangue como se fossem efeitos especiais de um filme macabro. Talvez... por ter entrado em contato profundo e direto com a transitoriedade e fragilidade de nossa vida. Talvez... por ter estar tão perto da morte, ser tocada por ela. Talvez... por estar na plataforma do trem da vida; presenciando o ir e vir dos passageiros e vendo alguns passageiros entrando no trem e se indo para todo o sempre, vendo muitas pessoas do meu lado que, assim como eu, aguardavam a sua “Hora”. Descer as escadas da estação e estar lá faz com que sintamos um profundo desamparo, uma sensação de abandono e uma solidão tão profunda que se torna indizível, inominável. Ficamos muito sós, com nossos pensamentos, com nossas lembranças, com nossa história. Após uma experiência desta magnitude no retorno ao cotidiano nos sentimos meio extraterrestre, como se fizéssemos parte destes dois mundos. Por isto que o caminhar para este estar aqui e agora se processa de uma forma lenta, como se parte de nós mesmos estivesse amarrada lá atrás, ficamos presos por um fio, ancorados. Porém, esta vivência de quase morte, não é a morte. Deparamos, sim, com a precariedade da condição humana. De repente estamos aqui, de repente podemos não mais fazer parte deste mundo!...Para onde será que vamos?!...Acredito no pós-morte, talvez isto aplaque mais meu coração do que daqueles que não têm a crença de uma outra vida. Sabemos que nascemos e vamos morrendo a cada segundo vivido, que a vida é o intervalo entre o nascer e o morrer. O processo de morrer se faz a cada segundo vivido. Mas o processo de morrer não é a morte. A morte, esta, sim, é implacável e definitiva!... O mais impressionante é que a idéia de morrer nunca me assustou. Sempre lidei com a questão da minha morte de uma forma tranqüila, ou talvez fosse esta a minha ilusão. Triste para mim era lidar com a morte das pessoas queridas. Ao perder o meu pai senti-me como mutilada, ao perder grandes amigos sentia que a vida perdia um dos seus tons. Mas, neste mês, há nove dias atrás, quando perdi um sobrinho de uma morte estúpida senti que talvez exista a “Hora” de fato!...O impacto de velá-lo doeu profundamente. Tão jovem, um garoto que vi crescer, se tornar homem, divertido e contador de história, cheio de vida e que se encontrava num momento tão especial de sua própria vida, foi levado para o além sem aviso prévio, sem uma justificativa que possa amenizar a dor dos familiares. Foi-se, simplesmente. E ai, de repente, percebo que a minha “Hora” não chegou!...Quando tive o abscesso hepático, no ano passado, compreendi que se o mesmo tivesse se rompido teria ido tão rapidamente quanto o foi o meu sobrinho, sem um tempo para o adeus. Mas a sorte mais uma vez estava do meu lado e foi possível tratá-lo. Estamos todos nós aqui, vivendo e batalhando por nossas vidas, por um mundo melhor, por mais alegrias, por uma vida com mais qualidade e mais digna. Estamos todos nós aqui à espera de nossa “Hora” e enquanto ela não chega temos o compromisso de vivê-la o melhor que pudermos, para mim este é o compromisso que temos conosco mesmo. E, quando estivermos na plataforma da última estação de nossa existência, possamos olhar para nós mesmos com a sensação de missão cumprida, vida vivida. E, se não tivermos este tempo para tal olhar, que as pessoas, ao se despedirem de nós, saibam que vivemos nossas vidas como gostaríamos de tê-la vivido. Tudo isto pode ser um sonho, mas agora que me sinto libertada de meu próprio sofrer e quero me transformar numa realizadora de sonhos...Sonhos que possam se concretizar e fazer parte de minha realidade!... Viver o melhor que me for possível, viver intensamente, viver cada segundo de minha vida ciente de que não sei qual é a minha “Hora”, pode ser a qualquer momento, pode demorar por vir...
Na estação da morte estive...
Estava sem bagagem...
Estava nua...
Da estação da morte saí...
Hoje estou com a bagagem de uma vida.
Pronta para ir...Pronta para ficar...
Vestida de mim mesma!... O INFERNO EM VIDA!...**Era madrugada, levantei-me para ir ao banheiro, sentia um mal estar e decidi colocar o dedo na garganta para forçar uma secreção e de repente estou expelindo sangue. Minha família que se mantinha sempre alerta, mal me deram tempo para me atinar no que estava acontecendo, ao tomar contato com este fato me impuseram o retorno ao hospital. Estava atônita, perdida, sem saber o quê pensar. Em minha mente só vinha a imagem do sangue vermelho vivo saindo de dentro de mim mesma!... Ficara um tempo no P.S do hospital que há alguns dias atrás havia deixado de forma tão animada. Foi em prantos que deixei o hospital ao qual estava habituada - não havia leito disponível - e, fui transferida para o hospital onde havia feito minha colecistectomia, hospital que havia sido uma escolha do médico. Retornava para onde tudo havia iniciado!... Além de ter que me deparar com profissionais estranhos, o atendimento neste hospital estava longe do que já estava acostumada. Porém o meu mal estar só tendia a aumentar, as crises sobrevinham deixando-me completamente aturdida. Agora não só vomitava como também evacuava sangue. Na tarde do meu segundo dia de internação, fui acometida por dores lancinantes, parecia que uma mão forte e grande estava, deliberadamente, espremendo minha espinha. Desmaiei. Quando voltei a mim, estava cheia de sondas e via o sangue através delas, mal conseguia distinguir as pessoas ao meu lado. De longe percebia meu companheiro dormindo em uma cadeira, ele se aproxima de mim quando percebia que despertava, fazia carinhos, mas logo era transportada, novamente, para o mundo da inconsciência. Não dava para compreender o me acontecia!...Havia um tumulto ao meu redor, parecia que todos estavam desbaratinados, estávamos perdidos. Não conseguia sequer pensar, na realidade parece que nem podia sentir. O médico responsável pela Unidade de Terapia Intensiva foi ao quarto e, numa tentativa de me tranqüilizar, informou que seria transferida para lá, apenas para que fosse monitorada por 24h até diagnosticarem qual era o problema. Não dá para expressar com foi o meu sentimento quando me vi numa maca andando para os corredores em direção à UTI. Nunca havia entrado numa antes. Não tinha a menor idéia do que iria encontrar pela frente. Inicialmente fiquei ao lado de vários pacientes, mas logo fui transferida para um box, extremamente escuro, pequeno e tinha uma portinha, onde no horário das visitas podia ver as outras pessoas que não podiam entrar, mas que estavam lá. Era carnaval. Uma enfermeira querendo me agradar ligou uma televisão para que pudesse assistir ao desfile das escolas de samba. Aff!...Pedi para desligar!...Achava tudo aquilo de extremo mal gosto!... Na realidade permanecia quase todo o tempo numa espécie de transe, pela minha mente perambulavam muitas das pessoas que passaram pela minha vida, nos muitos estágios dela, de períodos em que vivi em várias cidades e com várias vivências, como se fossem muitas vidas em uma vida. Eram como se todas elas estivessem ali me visitando, trocando algumas idéias, recordando alguns fatos, algumas reivindicavam coisas para mim, às outras, era eu que fazia minhas reivindicações. As visitas alternavam-se entre os vivos e os mortos, entre o presente e o passado. Desfilava aos meus olhos as minhas muitas histórias, as minhas muitas moradas, as muitas pessoas que não faziam mais parte do meu mundo e aquelas que estão convivendo comigo. No dia 24 de fevereiro fizeram o diagnóstico, havia uma lesão na parede externa de minha artéria hepática, de modo que a parte interna, mais frágil , oportunamente, veio para fora. Sem ter mais a proteção da parede. Vista no visor do aparelho parecia ser uma uva. Pensei que tudo pudesse ter sido resolvido no exame de angiografia, mas de repente fecharam a incisão e retornei para a UTI tal qual havia saído. Nenhuma providência fora tomada!... Permanecia em jejum absoluto, tomando apenas 2ml de água a cada solicitação. Estava no inferno em vida!...Nas madrugadas ouvia os berros de um dos internos, implorando que o tirassem dali, os contínuos lamentos de outro. Haviam enfermeiras que atuavam como se tivessem nos fazendo um favor, aquelas em que a má vontade imperava. Ali presenciei a primeira morte!...Uma senhora que acabava de sair de uma cirurgia cardíaca me fizera companhia por ínfimo tempo. Alguns minutos depois de sua chegada vi a correria dos enfermeiros, solicitavam a presença do médico (que não veio), observava o monitor estava a minha vista, acompanhava os esforços que foram em vão e os sinais foram enfraquecendo até que ficou em linha reta e o monitor foi desligado. Ia-se uma vida. Chegará a minha vez?!...Será aqui a minha última morada?!...
**Escrito em 26/02
QUARTO 316*Estar hospitalizada não é uma experiência gratificante, porém o lugar onde está “hospedado”, a atenção e cuidados dos profissionais que o assistem podem fazer uma diferença significativa durante o período em que se está internado. Realmente, minha boa relação com os vários enfermeiros, nos variados turnos ajudou-me muito, principalmente por eles me tratarem de uma forma, não só, humanizada, como também, por não lidar como se nós pacientes tivéssemos outros comprometimentos além dos males físicos. Um dia caminhando com o meu companheiro pelos corredores do andar, ele me disse, despercebidamente, para cumprimentar as pessoas. É algo hilário. Como nossa relação já estava muito complicada abstive-me de algum comentário, mas pensei comigo mesma: como que as pessoas tendem a confundir os males pelos quais passamos. Lembrei-me de quando o meu caríssimo amigo (e que me faz muita falta) estava internado, os profissionais chegavam no quarto quase que aos gritos ao conversar com ele, parecia que eles não percebiam que ele se encontrava doente e não surdo!... Tempos depois de minha internação, quando o meu companheiro foi fazer uma intervenção cardíaca, por ser um problema congênito acabou ficando na ala infantil, porque com o progresso da medicina, hoje, não se espera mais tanto tempo para operar. As enfermeiras pareciam que não ter um critério, quanto ao atendimento e dirigia-se a ele como se ele fosse uma criancinha: “Já fez pipizinho e cocôzinho hoje?”. Isto me irritava muito. Putz!...Será que não dá para perceber que o doente é um adulto e está com as suas faculdades mentais preservadas?!... Uma das cenas que rimos muito foi quando acompanhei uma amiga médica ao hospital, ela havia machucado a retina dos olhos com a farpa de uma planta que estava cuidando. Quando a médica que ia atendê-la chegou e dirigiu-se a mim para obter maiores informações do acidente, até que sugeri que ela perguntasse para a paciente que poderia explicar-lhe bem melhor do que eu. E é por este motivo que acredito que o atendimento que recebi foi extremamente adequado. Todos eles não me infantilizavam, não deduziam que estivesse surda ou com comprometimento intelectual. Voltar para casa sempre é algo muito gratificante. Receber alta e saber que tudo foi resolvido, animava-me muito. Porém, naquele momento meu relacionamento estava tão abalado que temia um clima muito estressante. Algo que confirmei logo na minha chegada, junto com minha irmã e meu cunhado. O clima não estava nada bom, não sabia muito bem como lidar com isto e, como já era habitual, quando estamos estressados, cada palavra dita se volta contra você. Há uma tendência de ficarmos sem saída e de saia justa. Sentíamo-nos descuidados e desconsiderados, sentimentos recíprocos, cada qual com a sua versão. Apesar das experiências difíceis que havia passado neste período de vinte dias de internação, sentia-me grata à equipe técnica pelos bons papos, pelos cuidados e por eles serem profissionais de alto padrão, no sentido afetivo, que eles são. Despedira-me, assim, do quarto espaçoso e arejado. Despedia-me dos cuidados que me foram deferidos. Nunca antes tinha tido uma experiência hospitalar por tanto tempo, até então, só havia operado as amídalas e foi há muito tempo atrás, mas pelo que pouco que me lembro fora uma experiência até divertida, porque naquela época era sugerido que se tomasse sorvete e obviamente me lambuzei de tanto sorvete.
Assim, aproximei-me mais ainda da vida como ela é!...Aproximei-me de um mundo em que todos nós oramos para que não entremos nele. Aproximei-me de um universo onde a vida tem linhas tênues, que espelha os grandes dramas de nossa existência.
*(Escrito em 14 de fevereiro) TUDO AQUILO QUE NÃO IMAGINAVAEstou aqui, no meu hoje, pensando sobre tudo o que me aconteceu e, no que aconteceu, com outras pessoas que tiveram uma experiência próxima a minha, questões sempre surgem, respostas, talvez nunca a tenhamos, mas nossa alma inquieta sempre questiona. Hoje, defronto-me com aquelas questões que escondi no mais íntimo do meu ser. Escondi, mas que aflora, porque tudo o que não é resolvido sempre volta de várias formas, com várias caras, mas volta!... A vida sempre se faz acontecer!...Machuca muito olharmos a vida e as pessoas de forma crua. Machuca muito ouvir o que muitas vezes ouvimos das pessoas que consideramos como seres amados. Muitas coisas deveriam se encaminhar de forma diferente, pelo menos é o que se imagina quanto se está numa situação hospitalar. Seria politicamente correto que as pessoas se entendessem, que todos ficassem unidos para lhe gerar mais conforto, mais cuidados. Mas, infelizmente, parece que numa situação de estresse, numa situação de crise as verdadeiras faces se mostram, as máscaras caem por terra e mesmo que estivesse sensível, dada às contingências da situação em que me encontrava, presenciava e sentia a guerra entre as pessoas que amava e eu, ali, funcionando como meio de campo. Tudo aquilo parecia uma “loucura”!... A realidade é tão dura, porém ela é verdadeira!... Ouvimos, vemos e sentimos coisas que não gostaríamos de participar, mas não mais, que, de repente, somos protagonistas de um filme que queríamos ser coadjuvantes. E, ainda, para complicar, sentimo-nos roteirista, como se este fosse um script construído por nós e assim, acabamos nos sentindo responsáveis pelo que se descortina em atos. Antes, achava que a vida era resultado de nossas próprias escolhas, que tudo o que nos acontecia dependia, simples, simplesmente, de nós mesmos. Porém, a história se escreveu de outra forma e, de repente, nos vemos num enredo tão diferente do que tínhamos construído!... A realidade não nos dá trégua, ela se mostra descaradamente. E, como dói!... É tão estranho!...Ver a realidade nua e crua. Percebi que passei a sentir e perceber um mundo que antes não percebia, com certeza o mundo não mudou, mas mudou e muito a forma como eu o vejo. E, ele é tão estranho, tão feio, tão cru, tão antagônico!... Queria ter as ilusões que eu tinha!...Queria voltar no tempo!...Queria voltar a ser a pessoa que era antes de enfrentar todas estas tormentas. Não é fácil viver numa avalanche de acontecimentos traumatizantes e ainda pensar que pode ser a mesma pessoa. As coisas vão se organizando novamente, porém só que de outra forma, os encaixes se modificam e a gente vai se modificando com eles. E estes arranjos nem sempre são para melhor. Sim, tenho esta impressão, tenho a impressão de que antes eu era uma melhor pessoa do que sou hoje. Será que ainda é possível rearranjar estes encaixes para que possa me suplantar?!... Tenho certeza de que a vida continuará, mas sei que não dá para simplesmente deletar como se nada me tivesse acontecido, já neguei outras experiências traumatizantes e, hoje, sei que este não é o caminho, os efeitos sempre surgem e o pior é que eles se apresentam de forma in natura, por não terem sido metabolizados. Quando completei quinze dias de internação os enfermeiros fizeram uma festinha para mim, sentia-me feliz por nos darmos tão bem, nem mesmo compreendia os elogios que recebia. Fizeram bexigas das luvas de assepsia, eram carinhas lindas, dei um nome a cada uma delas, sim, tenho esta mania de nomear as coisas. A enfermeira chefe acabou acatando o meu pedido de não mudar de quarto, mesmo contrariando uma regra do hospital. Ela chegou em mim e me disse que me achava um anjo, um anjo que mesmo passando pelas situações que passava ainda conseguia transmitir uma energia positiva para as pessoas a minha volta. Lembro-me disto com muito carinho, porém não consigo entender como alguém pode me ver desta forma, ou mesmo, como podia transmitir coisas tão boas às pessoas sentindo que cada vez mais algo parecia que ia se desfazendo dentro de mim. Olho para trás e percebo que todo o colo que queria ter e não o tive, todo o amor que me achava no direito de receber e não o recebi. Havia uma concorrência muito grande para se saber quem era que estava sendo lesado. Todos nós havíamos saído de nossas rotinas, todos nós estávamos tendo que lançar mão de algo para enfrentar aquela situação, mas dentro de mim sentia que deveriam considerar a situação em que me encontrava. Será que é um olhar “doente”?!...Será mesmo que os doentes se predispõem a fazerem mais dramas do que a realidade se mostra?!...Ou será que devemos ter um cuidado maior com o doente por estar ele onde está e como está?!... Enfim, parece que me desincronizei do mundo!... Eles achavam que mereciam algo por sofrer o quê sofreram, por viver o quê viveram e eu, igualmente, achava que merecia receber pelo que vivi e pelo que sofri. São os entrelaçamentos de nossos afetos, as complicadas combinações que nossa vida pode armar!... CALEIDOSCÓPIOTudo pode mudar de ponto de vista dependendo do ângulo que se vê. Assim é a vida, às vezes é preciso que modifiquemos nosso foco de atenção e deixemos de nos fixarmos numa só forma de ver as coisas que nos acontece. Para mim o dia 08 de fevereiro escancara muitas marcas, algumas cicatrizadas, outras, como feridas abertas que doem tanto, mesmo que o tempo tenha passado, que muitas coisas tenham se modificado, mas as marcas permanecem ali. Mais do que as marcas, o quê mais dói são os sentimentos associados a elas, um profundo sentimento de perda, perda do sentido das coisas que existiam e que deixaram de existir. E ao olhar para dentro de mim entro em contato com um rombo, um espaço vazio. Chorei por ter perdido algo de dentro de mim mesma. No dia 08 de fevereiro de 2003 houve uma confusão diagnóstica, não se sabia ao certo se eu estava com plaquetopenia ou plaquetose. Assustada frente à reação dos médicos, uma tensão estava no ar, pois um clínico checou se tinha manchas roxas ou não, se surpreendeu porque não tinha nenhum sinal de plaquetopenia. Liguei para o meu irmão e lhe perguntei o quê era pior para mim naquele momento de minha vida e ele simplesmente respondeu que torceria para que fosse uma plaquetose. Solicitaram a revisão do exame. No final do dia a chefe do setor de hematologia foi ao meu quarto e me confirmou que estava com plaquetose, que seja, um milhão de plaquetas. Não sabia o que significava isto, mas deduzi que era o melhor para mim naquele momento!... Sabia que naquele dia estava perdendo duas festas. Queria tanto estar circulando, o sol estava quente e estávamos em pleno verão. Queria estar cortando os bolos, cantando os parabéns!.... Era apenas o que queria!...Meu lado festeiro estava enclausurado! Gostaria muito de, às vezes, poder ver as coisas de uma forma mais despretensiosa, mais livre e menos possessiva. Mas naquele dia doeu mais, doeu muito, mais ainda por estar internada independente de minha vontade e eu, ainda, tinha que ficar ali andando com o cachorrinho, presa em um quarto e vendo que a vida dá tantas reviravoltas que não temos controle de nada que nos acontece. Queria, ou melhor, quero muito pensar que a vida não se faz de determinados momentos e, sim, que a vida se faz do momento. Depois de tudo o que já passei deveria dar um valor maior ao presente, ao que está me acontecendo aqui e agora, mas, de repente, sou invadida por lembranças, por mágoas, por um sentimento de privação que está linkado a algo que não tem nada a ver com o momento presente. Pior, mas muito pior ainda foi quando vi as fotos de uma das festas. Putz, eu perdi esta!... Mas tinha que demonstrar um outro sentimento do que o que verdadeiramente passava dentro de mim, sim, o outro não tem culpa de eu estar onde estava, o outro não tem que se constranger por estar curtindo enquanto eu estava limitada, impossibilitada e doente. Enquanto estamos hospitalizadas é como se fizéssemos parte do “mundo dos esquecidos” , estamos fazendo parte da vida, mas ao mesmo tempo é como se não fizéssemos, estamos em um lugar, mas não estamos nos lugares que poderíamos estar. Perdemos a opção do ir e vir...Não temos opção!... O mundo rodava independente de mim. Este é um sentimento estranho, porque percebemos que fazemos parte do mundo e ao mesmo tempo podemos ser prescindíveis. Gostaria muito de olhar a vida como olhamos um caleidoscópio que num movimento podemos transformar completamente o que se vê!...Talvez um dia eu ainda chegue lá!...E a dor que dói vá se esvaecendo e as lembranças vão se apagando e dando lugar a outros sentimentos que me permita ser mais feliz.
NASCIDO EM 5 DE FEVEREIRO
Vejo-me em constante estado de alerta, com quase nada de tolerância, situações que costumo lidar com naturalidade passa a ser algo que me tira de mim mesma, descompenso-me e toda a minha energia é dragada em segundos. Acabei de voltar de férias, estava ótima e, agora, cá estou eu com o sono perdido não sei onde, com uma sensibilidade à flor da pele, de fato conviver comigo nestes momentos não é uma tarefa fácil. Tudo passa a ser vivido de forma estressante e por vezes acabo me vendo brigando até comigo mesma na falta de um oponente!...Um conflito constante entre o corpo e a mente, o corpo quer relaxar e dormir, a mente, por sua vez, está sempre ligada, nada de me permitir dormir o sono dos justos!...
Revendo um pouco a minha própria história, dia 05 de fevereiro foi um dia marcante, tão marcante, que permanece presente como seqüelas em meu corpo até hoje. Esta mesma data, era o quinto dia após a minha segunda cirurgia, que foi uma laparotomia exploratória e uma coledocoplastia (dreno de Kher), sou notificada pelo enfermeiro que o meu dreno de Kher estava solto. Acho que uma das piores coisas é a ignorância que nos acompanha quando estamos sob o universo da medicina, porque, para mim, naquele momento, a notícia soou como uma sintonia, senti até uma certa alegria, ficaria livre daquele dreno colado em meu corpo e que me incomodava profundamente. Porém, o médico, que substituía o meu médico que aniversariava neste dia, fez aquela careta de “isto não é nada bom”, comentou que teríamos problemas, afinal o tal dreno teria que ficar muito mais tempo. E, fez um gracejo: “Que presente você está dando para o seu médico!...”
Hoje olhando com o distanciamento dos anos e ciente dos transtornos que me causaram a saída precoce deste dreno, fico mesmo até irritada ao me lembrar deste comentário. De repente até parece que fiz isto voluntariamente, pela minha simples vontade, pelo desejo que tinha de sair logo daquela situação tão incômoda.
Mais um problema para uma sucessão contínua de complicações (ou será para uma contínua sucessão de erros?!...).
Pergunto-me: Será que o dreno foi mal colocado?!...Por quê saiu com tanta facilidade se era para ficar durante dois meses?!...
Porém, agora compreendo bem a expressão do médico ao constatar a real saída do dreno. Sim, o canal do meu fígado ficara totalmente comprometido. Este dreno que tinha a função de reabilitar o canal, perdera a sua função. Só vim a compreender a extensão deste problema no dia 10 de março, quando o médico que passou a cuidar do meu caso me disse que o canal se encontrava anguloso e que por este motivo poderia obstruir a bílis e me causar uma cirrose hepática e se caso isto ocorresse a única saída era um transplante de fígado. Assim obrigatoriamente teria que ser submetida a mais uma cirurgia para que resolvesse estes estragos. Era um problemão!...
Pior, o “presente” ainda está presente!...Pelo que entendo foi necessário fazer uma cirurgia reparadora e com uma certa urgência, por isto houve uma mudança anatômica e meu mapa interno se modificou, se modificou tanto que, num dos meus exames de ultra-som de acompanhamento, o radiologista pediu-me para repetir o exame e solicitou que procurasse meu médico imediatamente. Bom, naquele dia tive uma sensação de que era uma Frankstein contemporânea.
Não sei se está havendo um exagero meu, mas na minha última internação em setembro do ano passado, a equipe de médicos que fez o meu acolhimento no hospital me informou que só poderiam ficar com o meu caso se tivessem condições de saber como era o meu organismo anteriormente (??????).
O “presente” presente resultou num abscesso hepático, outro grave problema que se não tivesse a sorte de ter sido detectado logo, poderia me causar um choque séptico, leia-se, falência múltipla dos órgãos e óbito.
Mas por ironia do destino os aquarianos sempre fizeram parte de minha vida. De várias maneiras e em diferentes épocas convivo com eles. Talvez seja uma sina...Talvez seja, como dizem os astrólogos, uma sinastria (a junção dos dois mapas), onde tais encontros podem causar as mais diferentes combinações e elas podem ser das mais desastrosas às mais legais.
No entanto, confesso que em todas elas não saí incólume, transformações ocorreram e me fizeram por vezes rever o curso de minha vida e de minhas relações.
O “nascido em 5 de fevereiro” conseguiu fazer uma transformação no que sou hoje como pessoa, transportou-me para experiências inéditas e inóspitas, devido a sua inépcia!...Argh!...
O SONHO DE LEVI Cá estou eu aqui neste meu espaço do qual me afastei durante meses , novamente, utilizando do blog para dizer de mim, por para fora algo que em determinados momentos parece que não faz sentido nem para mim mesma. Talvez eu esteja começando a me tratar como as pessoas tratam a questão da doença ,dos traumas, das tragédias e de todos os incômodos que por ventura encontramos em nossos caminhos, algo constrangedor, algo indigesto e por isto que este algo deva permanecer esquecido, trancafiado e excluído do nosso cotidiano. Será que possa existir dentro de mim um prazer mórbido de um eterno recordar?!...Por quê quando o calendário passa pelo dia 24 de janeiro, tudo parece se modificar dentro de mim?!...De repente todo o bem estar que adquiri nas minhas férias se esvai, escoa para algum lugar dando espaço para que a depressão se instale. Para onde será que ele foi?!...Onde foi parar toda aquela minha disposição?!... CELEBRANDO A VIDA Aos poucos o meu humor ia se modificando. Estava ficando mais animada, parecia que a vida passava a sorrir para mim, o tempo se modificava, agora o sol saia de trás das nuvens de minhas desventuras. Via-me desenterrando projetos antigos e me movimentava para ir atrás dos mesmos, tudo me parecia ser possível. Dizem que o que não nos mata, nos fortalece; mais do que nunca compreendia este ditado popular.
Sentia-me revigorada o bastante para ir atrás de todos os meus prejuízos, percebia que por muito tempo vivera uma situação cômoda, ajustada ao meu cotidiano e sem ir atrás de desafios. Muitas das coisas que considerava importantes tinham sido tragadas por uma rotina.
Olhava para os anos que antecederam a este ano e à minha tragédia pessoal e vi que tudo o que me ocorreu funcionava como um eletrochoque, despertando-me para outras possibilidades da vida.
E era assim que os meses precedentes começaram a me fazer mais sentido, a esperança entrava em minha alma. Lembro-me de uma cena hilária, de quando decidi comprar uma camiseta de lançamento da Fórum, que vinha com vários dizeres e entre eles se encontrava o da Fé. Sim, queria vestir a Fé. Ao entrar na loja fui informada que não havia mais a camiseta da Fé. Indignada, questionei: Como, vocês não tem fé?!...Os vendedores sorriram e me responderam: Temos fé, só não temos a camiseta. Mas frente a minha grande frustração, conseguiram-me uma camiseta com todos os dizeres e entre eles a Fé. Saí muito realizada da loja, vestida com a Fé!...
Sim, comprar era algo que já fazia parte do meu dia a dia. Livros, CDs e tudo aquilo que pudesse alimentar minha alma e me dar prazer. Via-me empolgada em ir à espetáculos, cinemas e voltara a estudar. A ânsia de aprender, de assimilar e de me reciclar tomara-me de uma forma nova. Quantas coisas havia na vida para serem apreendidas, nossa agora percebia que todo o tempo seria pouco para o tanto que precisava aprender, conhecer e adquirir.
Creio que aquisição seria a tônica desse meu momento. Talvez fosse a forma que encontrava para recuperar todas as minhas perdas, toda a minha destituição.
Um novo mundo parecia que se avizinhava para mim. Todos os meus dramas pareciam agora que estavam soterrados em algum lugar do meu ser.
Neste tempo estava abrindo espaço para uma aproximação maior com o meu ex-companheiro, agora, na verdade vivíamos o princípio de um namoro, um começo lento e com muito cuidado, afinal precisávamos curar nossas feridas. Não sabíamos ainda que chão pisávamos!...Mas não resta dúvida que esta fase tinha seus privilégios, caminhávamos juntos, íamos ao cinema, ao teatro. Muito diferente de quando estávamos juntos, onde nosso tempo juntos freqüentemente se resumia a algumas atividades sociais, mas a maior parte do tempo era vivida em nosso "casulo".
E foi neste período que ele me propiciou uma das noites inesquecíveis em minha vida. É até difícil transformar em palavras o que ela me significou, penso nela e gostaria de materializar esta vivência. Fomos a um show numa casa noturna de São Paulo que preza o jazz e o blues. Era um cantor, Tony Hall, de New Orleans, a casa estava lotada. As luzes se apagaram e do palco todo iluminado começou a surgir um som eletrizante, uma música vibrante que percorria por todo o meu corpo, senti-me viva como nunca. O "soul" era a voz de minha própria alma!...
O colar de contas brancas ofertado era o passaporte que me transportava para um outro mundo e, ao mesmo tempo, era o símbolo de que não estava sonhando!...Toda a casa pulsava...dançarinos no palco, todos de pé, sincronizados com a força da música.
Aquele som incendiava o ambiente. A emoção me tomou toda, a vida vibrava por cada célula do meu corpo, parecia que ia explodir frente à força daquela energia.
Chorava...chorava...chorava de alegria, chorava de felicidade...
Desacreditava que estava ali... Esta experiência, talvez, não teria sido tão forte em qualquer outro momento de minha vida, talvez sim, iria apreciar a música, mas ali estava não apenas apreciando, estava celebrando a grande oportunidade que tive de estar viva. Celebrava a vida que deve ser vivida, que deve ser saboreada em todas as suas possibilidades, com todas as riquezas que há para serem descobertas, com todo o vigor, com toda a energia de estar no mundo.
Era uma linda noite...estava sob o som de "In The Midnight hour"... I'm gonna wait till the midnight hour/ That when my love begins to shine...
Assim, o amor brilha!...Expande-se, irradia-se e é como se já não nos pertencesse mais, ele vai para o mundo...
O OUTRO LADO DA HISTÓRIA...
Por quantas vezes agimos sem saber os efeitos de nossos atos?!...Quantas vezes fazemos tudo aquilo que sentimos em determinado momento e nos omitimos de tomar conhecimento da repercussão deste ato no outro?!... A vida, no entanto, nem sempre possibilita que todos os nossos atos sejam refletidos, sejam ponderados e até mesmo esgotados em todos os seus ângulos, agimos simplesmente, fazemos o que podemos e muitas vezes o quê nem podemos. Provavelmente por sermos tão humanos é que somos vítimas de nossa própria condição e acabamos errando por sermos o que podemos ser. Não há idealização, não há manual que possa dar conta de tantas variáveis que interferem em uma ação. Muitas vezes ficamos sem saber o quanto magoamos, o quanto machucamos ou o quanto pudemos destruir alguém com uma atitude radical. Talvez seja a atitude radical que elimina a possibilidade de um diálogo mais próximo, de uma ação mais consciente. Muitas vezes a vida nos possibilita ter um retorno ou uma compreensão do significado de nossos atos na vida de outra pessoa, creio ser até um privilégio, por mais difícil que seja encarar os fatos que se apresentam. Acredito que este foi um dos privilégios do meu encontro com meu ex-companheiro. Marcamos um encontro em um Café, um lugar público e muito próximo de onde trabalho. Estava muitíssimo apreensiva, temia o que pudesse vir: temia brigas, discussões, acusações e, tudo aquilo que naquele momento me pareceria agressividade. Estava ainda muito fragilizada, talvez mais emocionalmente do que fisicamente. Afinal, ainda me encontrava em recuperação da própria experiência e até mesmo da minha vivência com ele. Estávamos pisando em ovos, cada um cuidando de suas próprias feridas, talvez por isto, mantivemos uma linha de equilíbrio e o diálogo foi possível. Pude ouvi-lo falar de seu sofrimento e de suas angústias, sem que isto significasse um ataque ou uma cobrança, abriu seu coração, falava de seu desespero de me ver próxima da morte sem poder fazer nada, nem mesmo falar comigo. Contou-me tudo aquilo que sofreu, de certa forma um sofrimento solitário, apartado do convívio com as pessoas que estavam próximas de mim. Porém ele estivera ali todo o tempo, acompanhou o meu processo, participou de tudo o que me ocorria, ficara horas e horas à perambular no hospital enquanto passava pela minha ultima cirurgia, que durou nove horas. Tive que admitir, pelo menos internamente, que de alguma forma ele fora injustiçado, ninguém naquele momento pôde olhar para a sua dor, todos estavam voltados em me proteger e em cuidar de mim. Todos os olhos estavam voltados em me preservar e, naquele momento, me preservar era me manter distante dele. Também eu, havia me alienado do nosso relacionamento. Em nenhum momento pronunciei mais o nome dele, após expressar o desejo de me separar. Não sabia nada do que ocorria fora das paredes do hospital!... Quatro meses haviam se passado e lá estávamos nós!... Quantas mágoas ficaram ancoradas naquela vivência?!.... Quantos traumas estavam ali, estagnados, como uma água de um lago?!... Como poderemos assimilar tudo isto em nós mesmos, no relacionamento?!.... E agora?!... As marcas se fazem presentes. As dores vão se diluindo com o passar do tempo, mas as marcas permanecem. Logicamente continuaremos a caminhar, a seguir o curso de nossas vidas, porém estes vestígios permaneceram. Será que é possível darmos conta dele?!...Será que algum momento tudo isto poderá ser assimilado e se poderá construir uma outra história?!...Quando que aprenderemos a lidar com a intolerância em nossas relações?!...Sim, acabamos todos sendo vítimas e algozes da intolerância!... O encontro fora muito diferente do que podia imaginar, estávamos ali, duas pessoas que foram muito machucadas, principalmente pela impossibilidade de dar conta do montante dos fatos, do desenrolar dos acontecimentos. Cada uma vivera tudo aquilo sem ter provisões emocionais para tal experiência. Somente frente as situações como esta que damos conta do quanto somos desprovidos para lidar com o imprevisível, que somos néscios frente as arapucas que o destino nos prega. Enfim, saí do encontro muito mexida com a nova visão que passara a ter sobre o seu processo pessoal, não imaginava que tudo aquilo lhe havia acontecido. Foi um encontro extremamente significativo, vi nele uma pessoa que, apesar dos muitos anos de convívio, ainda não havia visto. Isto nos possibilitou abrir uma porta, permitiu que talvez mais encontros pudessem vir a acontecer. Ao chegar em casa, colocar a cabeça no travesseiro, pensei: Se tivesse morrido o quê teria provocado em sua vida?!....O quê teria sido dele?!...Não teríamos trocado uma palavra!!... ATÉ O MAIS AMARGO FIM Estava de férias numa das praias paradisíacas que há no Brasil. A casa era uma construção encravada nas pedras, era praticamente uma praia particular, onde as escadarias de pedras esculpidas nos aproximava do mar. A casa possuía uma arquitetura estranha, cheia de corredores e de níveis e sua decoração era o mais puro sincretismo, além de muitas bonecas de pano distribuída pelos cômodos. Dentro da casa era invadida por um certa apreensão devido a estranheza de sua constituição. Porém, havia uma varanda, uma maravilhosa varanda, como um portal para um outro mundo. Ali tínhamos a nossa frente as pedras, a natureza e uma bela vista se derramava aos nossos olhos. Estar ali era a vidinha que se pede à Deus. Já havia lido os livros que havia trazido e numa busca na casa me deparei com o livro de J.M. Simmel, creio que minha atenção à ele se deu principalmente por causa do título(*); ler em tal lugar já era o prazer dos prazeres!...
Agora quando olho para trás e me lembro deste título, percebo que minha escolha por este título tem um sentido muito mais profundo para mim do que o simples prazer da sua leitura!...
Não há como não fazer uma revisão da própria vida frente uma experiência de quase morte. E percebi a grande dificuldade que tenho de colocar um limite nas experiências que me são desprazerosas, que me desgatam e que me impingem um profundo desconforto pessoal. Sei que de alguma forma esta extrema tolerância para suportar os excessos da relação está relacionado à experiência infantil, onde fui vítima de abuso sexual e, eu, como tantas vítimas deste ato acabam não desenvolvendo suficientes defesas para lidar com os extremos, com os excessos. Tal experiência nos descola da vivência natural de uma criança, perde-se precocemente a saudável inocência, vê-se submetida à uma pessoa, onde não é vista como um ser e sim como um objeto que promove um prazer perverso à outrem.
Infelizmente, este é um padrão difícil de ser quebrado. Olho para minhas experiências amorosas e percebo que todas as minhas escolhas estavam entrelaçadas a esta vivência de abuso. Não há como não inter-relacionar o meu estar no mundo com este trauma infantil. São as tramas que vão se constituindo independente de nossa vontade consciente, elas vão excecutando o seu trabalho no âmago do nosso ser e somente com um esforço muito intenso é que se pode ir desembaraçando estas amarrações.
Estou de encontro marcado com o meu ex-companheiro e tais correlações se fazem inevitáveis. Revivencio todos os nossos últimos meses de relacionamento e percebo como era difícil para mim estabelecer os limites, como permitia que o nosso convívio se organizasse de uma forma em que ficava num lugar destituído e onde era atropelada pela vontade do outro. O que mais dói quando revejo tudo isto é que este é um modo operante de minhas relações, onde minhas necessidades eram pouco vistas e pouco consideradas.
Com certeza vou revê-lo, mas após ser invadida de tantas maneiras nas minhas últimas experiências, que me causaram o excesso do excesso, creio que tenho a obrigatoriedade de me preservar, de não permitir que a minha pessoa seja amis uma vez um objeto. Sim, nas experiências hospitalares somos apenas um corpo, onde todos os procedimentos são feitos, onde você é apenas um autômato que vai se submetendo. Não há nada a fazer a não ser se deixar ficar ali!...
Quero agora vencer esta profunda impotência que, tal como esta casa de praia, está encravada em meu psiquismo!...
É preciso refazer todos estes caminhos, responsabilizar-me pelo meu hoje e não me permitir experimentar o gosto amargo há tanto tempo experimentado!...
"ALI ONDE EU CHOREI...""Chorei Não procurei esconder Todos viram, fingiram Pena de mim não precisava Ali onde eu chorei Qualquer um chorava..." Entrei numa fase de um choro compulsivo, convulsivo. Chorava muito, chorava a todo momento... Não foram os muitos os momentos em que o pranto tomava conta de mim. Era uma criança muito chorona, apelidaram-me de "manteiga derretida". Mas com os passar dos anos esta forma de expressão foi reprimida. Somente durante o processo psicanalítico que recuperei a "arte" de chorar, chorava muito à medida que aprofundava em minhas questões pessoais. E, redescobri que o choro é um contato muito intimo com nossos sentimentos e que chorar nos reconecta com todos aqueles sentimentos que foram represados, enjaulados e jogados para o nosso porão interior. Durante minha vivência de complicações cirúrgicas, somente no momento da terceira internação frente ao agravamento do meu quadro clínico, temia que não fosse sobreviver (afinal vomitava sangue e m profusão) , deparei-me com a iminência de minha morte... aí eu chorei...chorei muito... Olhando para tudo o que vivi até que não havia chorado tanto!...
Agora, era só lágrimas...um mar de lágrimas... Nunca antes havia tomado anti-depressivo. Mas, não havia mais saída, era necessário uma ajuda para que pudesse sair do fundo do poço. Perguntava-me quais seriam os motivos que me deixavam neste estado emocional, percebia que ia descendo aos poucos para fundo de mim mesma. Voltara com uma energia para recomeçar, porém com o passar do tempo em vez de ir melhorando, percebia que ela se esgotava facilmente, enfraquecendo-me ainda mais. Será que vim para São Paulo sem ter me recuperado?!... Será a solidão?!... Será a violência de tal realidade?!... Será que sou susceptível em demasia?!... O quê realmente acontecia comigo?!... Não me reconhecia mais. Tudo girava a minha volta, os pensamentos iam e vinham. Ora tinha insônia e só ia dormir ao amanhecer, ora tinha hipersônia e dormia em demasia, sem a mínima vontade de sair da cama. Tudo é tão estranho!... Estava desabrigada de mim mesma. Perdida, como um zumbi, sem saber que rumo tomar para que as coisas se encaixassem, que tudo se acomodasse em meu ser.
Era como se estivesse num trenzinho fantasma. A vida um parque de diversões às avessas. Reconhecia que estava traumatizada. Vira a minha integridade física ameaçada. Talvez a mesma sensação de quem sofre um acidente muito grave, de quem se vê seqüestrado, de quem tem doenças extremamente graves, de quem enfrenta situações limites, dos sobreviventes de guerra e dos campos de concentrações; ficar entre a vida e a morte. Algo que despenca sobre nós, tragicamente. E, foi neste momento que descobri a existência da Síndrome do Stress Pós-traumático. Será que era isto que estava ocorrendo comigo?!... Deveria ir mais fundo para compreender em que ponto fiquei, mas falta-me uma lanterna para iluminar o meu percurso interior. Onde realmente estava minha alma?!... Sim, estava vivendo em desalento, desalojada, como se fosse uma desencarnada!... Gostaria tanto de me aproximar de pessoas que passaram por algo similar à minha experiência. Será que elas ficaram assim também?!... Será que para elas a assimilação da experiência fora mais tranqüila?!... Onde estarão estas pessoas?!...
Vejo-me agora, mais do que nunca, como uma pessoa traumatizada. Trauma. Que palavra estranha!... Tenho consciência de ter tido outros traumas em minha vida, certamente eles me influenciaram profundamente em minha caminhada. Porém, estes traumas não me impediam de viver!... Céus!...Estou tão cansada de mim mesma. Não me agüento!... Devo estar a pessoa mais desinteressante do mundo!... Quantas vezes, quando alguém do nosso convívio fica numa conversa interminável, não nos inquietamos, ficando intolerantes com a situação?!... Disco arranhado (hoje CD)!...Tem algo que incomoda mais?!... Precisava urgentemente mudar a sintonia. Lanço mão dos psicotrópicos!...Lá estava eu utilizando a tarja preta!... Quando chegamos ao fundo do poço, não há mais o quê fazer, fica e vive um não-ser ou sobe!....
"Reconhece a queda E não desanima Levanta, sacode a poeira E dá a volta por cima..." |
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